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terça-feira, 25 de janeiro de 2022

meu navio tem dez mil velas, todas inúteis


(Yves Tanguy: January 5, 1900 – January 15, 1955) 


meu navio tem dez mil velas, todas inúteis,

pois ele é do tamanho do mundo, de nada me serve;

seus cascos são de metal frio ao toque,

o dorso brilhante de toda alvorada.

montanhas não lhe faltam; é um navio singular

de colinas flutuantes que ameaçam soçobrar

por vezes. habitavam-no antes de mim aborígenes

e alguns animais de pequeno porte.



meu navio, eu lancei-o ao mar, e disseram os peixes:

não pode haver navio assim tão extenso, e eu repliquei:

sejamos justos, este navio abarca toda a extensão das coisas

visíveis (dez mil velas!), sejam razoáveis, rendam-se à evidência.

e disseram os peixes, nada mais justo, mestre e senhor,

se foi na eternidade que tal navio foi concebido nele devemos

existir (se o mundo nele cabe) para um dia sermos emanados,

e os peixes foram.



e foi o navio até as encostas mais distantes (que dele eram

próximas três dedos), e disseram os animais da terra:

mas que tamanha extensão é esta que nos abarca e lança-nos

a sombra do extenso?, e disse eu, amigos, vejam, esta é a

sombra maior, e eu lanço para tornar conhecido quão extenso

pode ser o manto da escuridão. não lhes direi que possuo o

sol, mas toda sombra é minha de direito e fato, já que é minha

toda a sombra do mundo, e disseram os animais, senhor, abrigai-nos

para além desta manta negra,

e os animais foram.



e disse noé, senhor, tua tarefa está cumprida, mas antes ela não o estivesse,

pois passei a eternidade, à tua semelhança, construindo a nau de deus, e hoje

sei como os peixes que não pode haver teu navio de dez mil velas

(como os peixes, rendi-me à evidência),

sei como os animais da terra quão extensa é a tua escuridão, senhor, eu te renego

e só te peço, faças-me navegante errante de dez mil velas, dez mil vezes, para além

de todo o teu.



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